Coronavírus: hora de admitir que a civilização falhou

Dedos talvez contaminados digitam enquanto o som das teclas tateiam o ar, que não é mais respirado do mesmo jeito. Rostos aparentemente sem expressões são encobertos por máscaras cirúrgicas, que ocultam semblantes aterrorizados. Ouvidos acostumados com a trilha sonora urbana são incomodados pelo silêncio ensurdecedor das ruas, que são evitadas por aqueles que temem perder a vida. Isso, porém, não é a descrição de uma ambientação fictícia de terror biológico, mas sim o cenário de pandemia global no qual este texto é escrito. SARS-CoV-2, eis o nome do antagonista nesta luta da humanidade pela sobrevivência, o qual também pode ser referido como simplesmente coronavírus. Dito isso, dispensa-se maiores apresentações, uma vez que a mídia tradicional já está fazendo devidamente esse trabalho. Contudo, o que a mídia tradicional não faz chegar aos olhos e ouvidos dos rebanhos humanos, presos em seus confinamentos de concreto, é a dinâmica civilizacional das epidemias e pandemias, que expõe uma grande falha incorrigível da civilização.

Isto posto, a fim de compreender tal dinâmica civilizacional, faz-se de extrema valia começar mencionando o livro Sapiens, onde contém o início da resposta de como a civilização deu errado. Seu autor, Yuval Harari, demonstra que nem sempre o Homo sapiens esteve tão sujeito a doenças infecciosas como hoje ao narrar como as sociedades pré-agrícolas, isto é, sociedades tradicionais de caçadores-coletores anteriores à Revolução Agrícola, estavam menos sujeitas a tais doenças:

Os antigos caçadores-coletores também eram menos afetados por doenças infecciosas. A maioria das doenças infecciosas que acometeram as sociedades agrícolas e industrias (como varíola, sarampo e tuberculose) se originou em animais domésticos e passou para humanos somente após a Revolução Industrial . Os antigos caçadores-coletores, que domesticaram apenas cachorros, estavam livres desses males. Além disso, a maioria das pessoas nas sociedades agrícolas e industriais vivia em assentamentos permanentes que eram populosos e poucos higiênicos — uma incubadora ideal para doenças. Os antigos caçadores-coletores percorriam a terra em pequenos bandos, o que não alimentava epidemias.

Ou seja, a partir do momento que houve o domínio de técnicas agrícolas e de domesticação de animais, bandos de Homo sapiens, até então nômades, viram-se aptos a viverem em assentamentos permanentes, com maiores capacidades produtivas e reprodutivas. Assim, as sociedades foram se tornando cada vez mais populosas e com demandas cada vez mais complexas, conforme desenvolviam-se tecnologicamente, expandindo e tendo contatos mais íntimos com outras espécies, as quais, em muitos casos, são fontes de doenças contagiosas. Eis, portanto, a dinâmica civilizacional mencionada. A civilização, enquanto fixação sedentária ao solo, não apenas surgiu como se expandiu, mantendo seu metabolismo insaciavelmente ativo até os dias de hoje e submetendo a humanidade a probabilidades cadas vez maiores de sofrer com doenças infecciosas vindas do contato com animais inumanos.

De acordo com o estudo Global trends in emerging infectious diseases, a maioria (60,3%) das doenças infecciosas emergentes (DIEs) é causada por patógenos zoonóticos, isto é, agentes causadores de doenças de fonte animal não humana. Além do mais, 71,8% dessas DIEs foram causadas por patógenos de origem silvestre, tendo esse evento aumentado significadamente e constituído 52% das DIEs da década de 1990. Logo, segundo o estudo, isso apoia a hipótese de que os eventos de “DIEs zoonóticas representam uma ameaça crescente e muito significativa para a saúde global”, estando eles “significativamente correlacionados com a biodiversidade da vida selvagem”. Ademais, o estudo aponta para esse fato como sendo um apoiador da hipótese “de que o surgimento de doenças é em grande parte um produto de alterações antropogênicas e demográficas e é um ‘custo’ oculto do desenvolvimento econômico humano”. Ou seja, corroborando-se empiricamente as palavras de Harari, a expansão civilizacional, ao intervir em ecossistemas a fim de explorá-los economicamente em busca de desenvolvimento, promove o aumento do contato com animais silvestres e da probabilidade de contágio de novas doenças. Afinal, o próprio coronavírus tem como possíveis hospedeiros naturais morcegos e pangolins. A dinâmica civilizacional, embora proporcione ganhos econômicos e tecnológicos, possui um ônus fundamental: ela ocorre a troco de iminentes epidemias e pandemias.

Ônus este que não é distribuído proporcionalmente aos ganhos privados da expansão da civilização. Ao contrário do bônus da acumulação abundante de riquezas, o ônus de desastres biológicos é distribuído mais intensamente entre as classes sociais mais baixas, que são estruturalmente mais vulneráveis. Atualmente, enquanto em uma ponta há superricos mudando-se para bunkers para fugir do coronavírus, na outra há miseráveis vivendo sem saneamento básico. Porém, essa condição não é exclusiva do atual estágio civilizacional — o capitalismo — , uma vez que isso é um padrão histórico. Conforme explica Peter Turchin, em seu livro War and Peace and War, acerca da peste negra:

Em geral, as epidemias sempre causam uma mortalidade mais alta entre os pobres, que sofrem de desnutrição, maior aglomeração e falta de cuidados com o leito e medicamentos. Mas no caso da praga, a melhor maneira de evitá-la era fugir. Enquanto os pobres urbanos morriam em massa, os ricos tinham suas propriedades rurais para fugir, como os jovens aristocratas de Decameron que deixaram Florença para um palácio pastoral “removido de todos os lados das estradas” com “poços de água fria e abóbadas de raros vinhos” . Geralmente, estima-se que o primeiro surto de peste em 1348–9 tenha levado cerca de 40% da população inglesa. Os monges que ministravam aos moribundos sofriam uma mortalidade ainda maior. A mortalidade de tenentes, por outro lado, foi de apenas 27%. No topo da pirâmide social, os nobres perderam apenas 8% do seu número. O único monarca reinante que morreu de peste foi o rei Alfonso XI de Castela.

Assim sendo, o atual cenário civilizacional é fundamentalmente contraditório, pois, na medida que promove tratamentos, curas e fórmulas de vida saudável, possui como subjacência a esse desenvolvimento uma dinâmica promotora de doenças infecciosas, que afetam mais intensamente as classes que menos ganham nesse jogo. É um ciclo, o qual só pode ser quebrado se for revolucionado. Contudo, o Homo sapiens civilizado está em um elevado grau de vício nas ofertas da civilização, ao ponto de tornar qualquer tentativa de retorno às sociedades de caçadores-coletores impraticável. Portanto, a revolução, ao invés de buscar retroceder à pré-civilização, deve levar a civilização às suas últimas consequências, rumo à pós-civilização, quando biotecnologias forem mais amplamente acessíveis que analgésicos e smartphones. Quando a capacidade de autoaperfeiçoamento biológico não estiver concentrada, mas sim difundida entre todos os indivíduos, propiciando uma hiperimunidade potencial que abolirá o ônus da dinâmica civilizacional. Quando não seremos mais humanos, mas sim transumanos.

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