Teste do agente invisível: o suicídio comportamental do Ocidente

A prevalência de valores individualistas ou coletivistas nas culturas pode estar relacionada ao nível de suscetibilidade a surtos de doenças infecciosas em diferentes sociedades. Dados epidemiológicos sugerem que regiões com prevalência de comportamentos coletivistas, isto é, comportamentos com maior grau de conformidade, estão mais propensas à inibição de surtos. Ora, na medida que agentes sociais possuem maior capacidade de coordenarem seus comportamentos a fim de atenderem a um interesse coletivo, eles estão mais propensos a inibirem a proliferação de patógenos. Sendo esse poder de coordenação estimulado por valores coletivistas, que são caracterizados por estruturas morais que enfatizam o interesse do grupo (como interesses comunitários, sociais ou nacionais) sobre os interesses de seus membros individuais. Por outro lado, os valores individualistas, ao favorecerem os interesses dos indivíduos (como interesses da autonomia ou da liberdade individual) sobre os interesses do grupo, são menos aptos a estimularem comportamentos coordenados capazes de inibir de forma eficaz o contágio de doenças infecciosas. Ademais, indivíduos de sociedades coletivistas, devido ao fato de serem mais apegados às suas respectivas tradições, são mais etnocêntricos e, portanto, estão menos inclinados a manterem contato com estrangeiros, o que desfavorece a contaminação regional. Ao contrário de indivíduos de sociedades individualistas, que, devido a valores liberais, estão mais inclinados a manterem contato com estrangeiros, favorecendo a contaminação.

Dito isso, embora todas essas variáveis impliquem a superioridade de sociedades coletivistas frente a surtos de doenças infecciosas, nenhuma delas é mais significativa que aquela apontada por Moldbug: os valores políticos dirigentes. Dado que sociedades coletivistas estão mais predispostas a terem instituições centralistas — ou pelo menos instituições que não são alérgicas a um centralismo emergencial — , suas culturas políticas permitem coagir mais facilmente seus cidadãos a adotarem comportamentos estratégicos contra epidemias. Tendo a realidade atual mostrado que esse fator foi preponderante para a superioridade de países orientais em relação a países ocidentais da América e Europa continental, como bem explica Moldbug:

Aqui está uma analogia. Suponha que você administre uma reserva de vida selvagem em Montana — abastecida com dez mil alces. De repente, esse rebanho é atacado por uma doença dos alces loucos, para a qual não há vacina ou cura. O que você pode fazer? Nada.

Então, vamos mudar as regras. Cada alce no seu rancho é marcado. Tem um número e um chip de rastreamento. Não existe vacina ou cura para a doença dos alces loucos — mas existe um teste. Você também tem uma frota de pequenos drones parecidos com pássaros que podem pousar em um alce e testá-lo — e grandes que podem capturar e transportar alces vivos.

Portanto, seu rancho tem quatro tipos de alces. Vamos rotulá-los por cores. Você tem alces saudáveis (verde); alce infectado (vermelho); alce possivelmente infectado (amarelo); e alce imune (cinza). Qualquer alce verde que se aproxima de um alce vermelho ou amarelo fica amarelo.

Você separa os alces vermelho e verde em dois rebanhos. Você isola os alces amarelos de todos os outros alces coloridos até que eles se tornem vermelhos ou verdes. Os alces cinzentos podem pastar à vontade. Tudo o que você precisa é testar e transportar drones e barracas suficientes para isolar seu alce amarelo.

Os alces são grandes e mal-humorados. Você não pode contar nada a eles. As barreiras físicas ao teste e transporte desses grandes ungulados são consideráveis. Felizmente, não nos importamos com alces — apenas seres humanos, uma espécie inteligente, social e governável.

China, Cingapura, Coréia do Sul e Taiwan usaram variantes desse design óbvio para conter o vírus. Todos os adultos nesses países são identificados e rastreados por telefone e precisam isolar, se necessário; crianças apenas ficam dentro.

Em contraste, sociedades individualistas do Ocidente não possuem esse mesmo tipo de facilidade, devido aos freios da mentalidade liberal dominante que elevam a “liberdade individual” a um patamar de sacralidade intocável. Contudo, o teste ambiental pelo qual o planeta está passando não se importa com ideologias ou tradições, o que importa é somente a capacidade de sobreviver e se reproduzir e, pelo visto, a democracia parida pelo Iluminismo não está conseguindo resistir aos moldes que Hollywood nos fez acreditar que resistiria. Em razão disso, novamente de acordo com Moldbug, as sociedades ocidentais possuem uma mistura suicida de governos demasiadamente covardes para mandar e cidadãos demasiadamente mimados para obedecer:

Todos os americanos também têm telefones. Se não, um custa US$ 50. Por que não podemos usar esta solução eficaz? Por que não começamos o controle total da população — com rastreamento, teste e isolamento involuntários — pra ontem?

Porque a América é uma democracia — ou pelo menos, tem eleições com as quais seus cidadãos ainda se preocupam? Não tão. O mesmo vale para Taiwan e Coréia do Sul.

Aqui está a resposta, sem açúcar. Americanos são crianças. Eles são pueris, mimados e arrogantes. Quando se olham no espelho, tudo o que vêem é um rei ou uma rainha. Reis podem ser gerenciados? Como animais selvagens? Um rei não é um alce.

Nenhum rei dobra o joelho. Pedir a um rei que use uma máscara, para que uma fonte de germes não saia de sua boca toda vez que ele respira, tosse ou espirra — que insulto! A respiração de um rei é sempre doce.

Tendo isso em vista, enquanto os valores individualistas podem ser vistos como estimuladores de comportamentos suicidas de grupo, como observado em países que inicialmente negligenciaram o poder da pandemia, como Itália, Reino Unido e EUA, os valores coletivistas dos países orientais podem ser considerados componentes de um sistema imunológico social, cuja emergência é explicada por uma maior exposição histórica de certas regiões a maiores cargas de patógenos. Dessa maneira, o processo de seleção natural proporcionou, nessas regiões, a sobrevivência dos grupos mais adaptados a essa exposição, os quais tinham maior sucesso de reproduzirem-se e repassarem para as gerações seguintes os valores culturais que geram a melhor aptidão de sobreviver em meio a surtos de doenças infecciosas. Contudo, não só valores culturais são herdados, mas também a subjacência genética que favorece comportamentalmente tal aptidão.

Desse modo, ironicamente, a ordem espontânea da seleção natural está desprivilegiando sociedades liberais, que são justamente aquelas que buscam privilegiar o espontaneísmo seletivo dessa ordem, seja através do processo econômico de mercado ou do processo político democrático. A falência do gerenciamento democrático ocidental nada mais é, portanto, que uma consequência da própria ordem espontânea. Tendo restado às democracias liberais do Ocidente duas possíveis respostas diante da pressão evolutiva pandêmica, ou aceitam o destino reservado pela seleção natural ou resistem a ele adotando medidas políticas e econômicas anti-liberais. De uma forma ou de outra, a ironia dessa contradição persiste. E, como esperado, a alternativa escolhida foi a segunda, economias de guerra foram adotadas, hospitais foram estatizados e a liberdade de ir e vir foi limitada, embora da maneira atrapalhada que se esperava. A tendência, contudo, é que mutações culturais ocorram e propiciem a evolução desses países, afinal, pandemias, assim como grandes crises econômicas e guerras, possuem o potencial de estimular a emergência de novos cenários ideológicos. Logo, percebe-se que o teste de realidade que esse agente invisível está impondo é mais poderoso do que qualquer ideologia. Nada está imune.

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