Dark: filosofia, ciência e entretenimento

Por Júlio Cesar da Silva

Vamos falar de Dark, série da Netflix que encerrou neste mês sua jornada por três temporadas, várias décadas e mundos.

SEM SPOILERS

A série nos entrega um final que considero consistente, trabalhando não somente as consequências da viagem no tempo mas os entrelaçamentos (Quânticos?) das relações humanas. Li e concordo que os produtores e roteiristas nos entregam uma leitura da cultura alemã (temas como o livre arbítrio, o eterno retorno, a religião e o infinito) sem apelar para o tema nazismo. Nada contra manter vívida a memória do nazismo, mas é importante mostrar a Alemanha que existe para além disso. A nota é 8,5!

COM SPOILERS

Dark é complexa de uma maneira que, ou você gosta, ou você odeia. A primeira temporada é instigante, a segunda nos deixa com dúvidas se tudo realmente terá sentido e, para alívio, a terceira mostra que desde o início já se tinha uma ideia clara do que seria contado nas três temporadas.

O ideal é assistir as três temporadas em sequência, juntamente com uma imagem das famílias e suas relações (coloquei uma logo abaixo, no fim do post). Entretanto, para quem já acompanha os LIVROS das Crônicas de Gelo e Fogo e Wildcards, já está acostumada com diversos personagens e momentos dentro de uma trama maior.

Agora sabemos que a história envolve um período de tempo que vai de 1888 a 2053 e um loop infinito, onde tentar consertar as coisas é, ao mesmo tempo, gerar o próprio problema. Avós e avôs, netos e netas são revelados. Inclusive as épocas estão interligadas, o futuro pós apocalíptico com o passado de 1888, por exemplo. Três indivíduos atuam nesse cenário de idas e vindas: Adam, Eva e Cláudia (Diabo Branco) inicialmente numa disputa pela narrativa criada pela viagem no tempo, posteriormente parte de um jogo entre a morte (o fim daquela sequência infinita de sofrimento) e a vida (o aceite de como a vida é em sua complexidade e sofrimento). Adam é a morte e Eva a vida, ambos presos a estes desejos, o que também impede que o loop seja rompido.

Este é um dos diversos aspecto que a cultura alemã poderia com certeza nos fornecer. Um jogo entre sentimentos, desejos, sofrimento e tragédia que se repetem sem exatamente apresentar um início e um fim. Veja com atenção que tudo já estava descrito na encenação do mito Ariadne, um monólogo da encenação de Martha repetido novamente na terceira temporada (destaque para os elementos do labirinto, do Minotauro e do fio):

“O mundo antigo voltou para a assombrar como um fantasma que sussurra em um sonho como construir o mundo novo, pedra por pedra. A partir daí, eu sabia que nada mudaria. Que tudo ficaria como antes. As rodas dentadas giram em um círculo.

Um destino ligado ao próximo. O fio, vermelho como o sangue, junta todas nossas ações. Ninguém consegue quebrar os nós. Mas eles podem ser cortados. Ele cortou nossos, com uma lâmina afiada. Porém algo ficou para trás que não pode ser cortado. Uma ligação invisível.”

Com a terceira temporada sabemos que, além da cidade de Winden1, da primeira e segunda temporada, temos Winden2, um outro universo, literalmente espelho, onde Jonas não existe, mas a história se repete, onde Martha é o foco dos acontecimentos. O novo desafio para o telespectador é recompor a primeira temporada nessa nova perspectiva. Novamente a série nos surpreende ao responder a pergunta: e se não tivesse acontecido? Além dessa novidade, três indivíduos (criança, adulto e velho) influenciam os acontecimentos, como o entrelaçamento das moiras (em grego: Μοῖραι) da mitologia grega. É o filho de Adam de Winden1 com Martha de Winden2, do amor proibido entre o sobrinho e a tia.

Não se trata simplesmente de contar exatamente a mesma história, existem elementos diferentes que são essenciais para compreender que nesse universo espelho será gerado Eva, a contra parte de Adam que luta pela possibilidade de gerar seu filho proibido. A semente e início de tudo. Ao menos é o que acreditamos até que a temporada caminhe para a sua conclusão nos dois últimos episódios. Enquanto isso Adam luta para que tudo deixe de existir, acumulando cicatrizes e paradoxos como o de Elizabeth, mãe e filha de Charlote.

Eu já falei de alguns aspectos da literatura e mitologia que permeia a série. E existem outros.

Leibniz é um matemático e filósofo alemão, dentre muitas outras coisas, que escreveu acerca dos mundos possíveis e, com suas mônadas, também fornece uma teoria acerca das questões pré determinadas na existência. Também é na Alemanha com Cantor (e, em certa medida Hilbert) que o infinito em ato e potência será discutido com o surgimento da Teoria de conjuntos. Com Einstein e Schrödinger as questões quânticas vão abrir um campo amplo de possibilidades e polêmicas acerca do universo micro. Como escreve Hilbert em seus texto Sobre o Infinito:

“Existe, contudo, um caminho satisfatório para evitar os paradoxos sem trair nossa ciência. As atitudes que nos ajudarão a achar este caminho e a direção a tomar são as seguintes:

Definições frutíferas e métodos dedutivos que tiverem uma esperança de salvamento serão cuidadosamente investi­ga­dos, nutridos e fortalecidos. Ninguém nos expulsará do paraíso que Cantor criou para nós.”

Dark é uma infusão de ciência e cultura. Entretanto, o ponto central são as relações humanas, e o tema do eterno retorno de Nietzsche permeia constantemente as temporadas. É o caso da descoberta de Claudia de um terceiro universo onde a verdadeira origem se encontra, percebemos como a angústia da perda de Tannhaus é o catalizador para que ele busque impedir a morte de seu filho, nora e neta e acabe gerando os universo de Winden1 e Winden2.

É interessante como nesses universos, que surgem da busca de Tannhaus, a história se repete no símbolo da violência e do uso da pedra: Ulrich e Hegel e Katharina e sua Mãe, por exemplo. A infidelidade também se repete na família Nielsen (Tronte e Ulrich) e na família Dopper (Peter). Aliás, o embate país e filhos alcança Claudia e Egon. A morte pelas mãos do genitor, o sangue derramado da própria família. Mais e mais elementos e símbolos interessantes da mitologia e religião.

Novamente, todos destinados a repetir seus atos. Todos enredados pelo fio vermelho, o sangue, que denota a tragédia. Como nos escreve Nietzsche em um fragmento póstumo:

E sabeis sequer o que é para mim “o mundo”? (…) Este mundo: uma monstruosidade de força, sem início, sem fim, uma firme, brônzea gran- deza de força, que não se torna maior, nem menor, (…) jogo de forças e ondas de forças ao mesmo tempo um e múltiplo, (…) afirmando ainda a si próprio, nessa igualdade de suas trilhas e anos, abençoando a si próprio como Aquilo que eternamente tem de retornar (…) (Nachlass/ FP 1885, 38[12], KSA 11.610. Trad. RRTF).

Dark é uma história de amor impossível. Simples, por um lado, extremamente complexa por outro. Tudo depende do quanto repetimos e repetimos o loop de seus temas. A compreensão final é gratificante. Ao final, a máquina de Tannhaus conseguiu salvar sua familia.

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