Cinco objeções ao kalam: Porque criar o Universo do nada é impossível

Por: José Adairtes

Antes de começar a levantar as objeções, gostaria de enfatizar que eu não sou ateu ou coisa assim, acredito em Deus, porém, tenho uma própria picture de Deus que vai de encontro à picture convencional. Eu rejeitei a caracterização convencional de Deus por julgar problemática, então, como todo bom filósofo, eu a reformulei de uma forma imune a maioria das objeções que são comumente levantadas por filósofos ateus de destaque. Mas este texto não é sobre a imagem/caracterização que tenho de Deus, mas sim sobre os problemas que vejo no argumento kalam, portanto, deixemos essa minha caracterização de lado, pelo menos por hora.

Primeiro Problema: vir a ser/existir

O pessoal que vai na onda do Craig cegamente não percebe que o ele assume alguns pressupostos metafísicos bem questionáveis. A título de exemplo, a primeira premissa do kalam diz que tudo que passa a existir tem uma causa, até aí tudo bonitinho, porém, quando parte para a segunda premissa, ele diz que o universo passou a existir. Porém, ele se esquece que o passar a existir em 1 não é mesmo em 2. Claro, o Craig, como sempre, tenta contornar isso, dizendo que há um causa para o universo, e isso basta. Mas será mesmo? O universo tem uma causa de fato, mas, quando olhamos para o mundo, percebemos que as coisas, quando surgem, surgem por intermédio de uma multiplicidade de outras coisas que já existiam.

Como isso sucede? Bem, é digno de nota que uma casa surge de tijolos que já existiam e, por sua vez, tijolos surgem de um material (matéria prima) que já existia, e assim sucessivamente. Aqui, o que podemos perceber é que há um princípio. O princípio que podemos ver é que coisas novas surgem a partir de coisas antigas (PNA|PRINCÍPIO|NOVO(A)|ANTIGO(A)). Dado esse princípio, podemos perceber porque a segunda premissa do kalam é problemática. O que ela estabelece é que o universo surge do nada, o que viola o PNA.

Alguns podem dizer que o universo é uma exceção. Porém, eles estariam cometendo a falácia do táxi, falácia essa, comumente usada por teístas contra ateus, para justificar porque o universo não pode ser uma exceção ao “princípio” causal — supondo que haja um. Todavia, poderia ser igualmente perguntado o porquê de o universo ser uma exceção ao PNA. Outra tentativa teísta de driblar isso é dizer que o universo é uma exceção devido a não possuir qualquer matéria pré-existente. Bem, mas por que o universo, ou o seu surgimento, não seria igualmente uma exceção ao princípio causal? Ora, pressupor Deus no início é apenas uma forma de querer preservar o princípio causal. O teísta está dizendo apenas que uma vez que tudo que passa a existir tem uma causa, o universo também deve também ter uma, afinal, ele passou a existir. O mesmo poderia ser argumentado para o PNA. Eu não consigo ver como o teísta não está em maior ou igual apuros que o ateu que afirma ser o universo incausado.

O teísta pode querer dizer que o universo surge do nada para o ateu, dado o Big Bang, e na ontologia teísta, pelo menos, Deus existe e está por trás do surgimento do universo. Mas eu não entendo porque o ateu não pode dizer que, seguindo o exemplo do teísta, há algo anterior ao universo que não é o Deus teísta. Por exemplo, é possível pensar que há matéria antes do surgimento do nosso universo. Isso, diferente da segunda premissa do kalam, não violaria o PNA. O teísta pode querer dizer que é uma contradição haver matéria antes do início do universo, porém, dado o PNA, a contradição está em querer justamente inferir o contrário, que não havia nada, senão, um ser imaterial que criara o universo absolutamente do nada. Nesse cenário, o ateu encontra-se em vantagem.

Segundo Problema: A teoria-a do tempo como pressuposto

O Craig diz comumente que o argumento kalam pressupõe a teoria-a do tempo, e uma forma de abater ao argumento seria apresentando razões contra o presenteísmo, a tese que nem o futuro nem o passado existem, apenas o presente. Todavia, há uma certa desonestidade nesse caso. Porque a teoria-a não implica apenas o presentismo, pior, a teoria-a sequer implica uma única forma de presentismo. É possível ser presentista e defender que o passado existe, seja assumindo que o passado existe dentro do presente ou que o passado não se mate em distância temporal com o presente. O problema, é que o passar a existir como tomado pelo Craig, assume uma forma particular de presentismo, e isso é um problema, porque essa forma particular não tem um fundamento seguro e qualquer argumento que possa ser usado para subsidiá-la, isto é, para justificar a crença nessa forma de presentismo, pode ser, igualmente, usado para justificar a crença em qualquer forma de presentismo, mesmo essas que eu citei mais acima. A título de exemplo, considere o thank goodness, argumento desenvolvido pelo Prior. É argumentado que eventos passados não têm impacto no presente, porque eles não existem mais. Por exemplo, suponha que eu tenha saído do dentista e, ao sair, exclamei “Enfim, acabou!”. Ora, eu só falo isso porque esse evento, para mim, não mais existe. Se o passado existisse, então, eu ainda estaria lá, e, portanto, essa expressão não faria sentido.

Mas proponentes de um tipo de presentismo que preserva o passado, dirão que a exclamação faz sentido mesmo com o passado existindo. A ideia é que o evento existe, porém, não é mais o evento de eu sentir dor. Pois o próprio evento possui a propriedade passado-flexiva de não mais doer. Essa propriedade diz respeito ao fato de que o evento, mesmo existindo, não mais causa dor. Portanto, esse argumento pode ser usado para endossar, também, esse tipo de presentismo.

Outro argumento que é usado é o argumento linguístico, que diz que o discurso temporal não é analisável em termos de sentenças atemporais. Esse argumento também não implica na forma de presentismo endossada pelo Craig, embora, ele o use como se implicasse. O Craig usa também a suposta vantagem da sua forma de presentismo não incorrer no paradoxo de Mctaggart, porém, já foi argumentado de forma ampla na literatura que nenhuma versão da teoria-a incorre nesse paradoxo.

É também digno de nota que a forma de presentismo endossada pelo Craig enfrenta problemas que as formas que preservam o passado não enfrentam. Primeiro, o presentismo, como endossado pelo Craig, vai de encontro ao princípio do truth-maker porque, como foi dito, no presentismo-craigniano o passado não existe, logo, não há truth-makers para verdades passadas. Segundo, com respeito às proposições, as proposições são tomadas para ser entidades estruturadas, ou seja, quando se pronuncia um enunciado do tipo José ama Maria, a proposição expressa por esse enunciado é constituída por José, Maria e a propriedade relacional ama. Isso é assim para todas as proposições, inclusive para aquelas sobre eventos passados. Uma vez que o presentismo-craigniano é a teoria de que o passado não existe, segue que o presentismo-craigniano implica um problema para a teoria padrão das proposições.

O meu ponto aqui sequer é objetar a teoria-a, mas mostrar que é possível endossar a teoria-a e ainda assim rejeitar o pressuposto do kalam sem muita dificuldade. Aqui, o que eu posso perceber é que o Craig, para manter esse argumento, se compromete com uma teoria sobre o tempo extremamente problemática.

Terceiro problema: simultaneidade e tempo

Uma vez que os proponentes do kalam assumem que Deus, sem o universo, permanecia num estado atemporal, é natural perguntar como foi possível para Deus, estando nesse estado, trazer o universo à existência, uma vez que criar\causar é um evento temporal. Portanto, é coerente concluir que o tempo deveria existir antemão para que assim fosse possível Deus criar o universo. O problema com essa conclusão, é que se o tempo existia, então, Deus não criou o tempo, e, por sua vez, o universo, afinal, o universo se resume a espaço e tempo.

A forma com que os proponentes do kalam tentam resolver essa problemática se traduz em invocar a chamada simultaneidade causal. Eles advogam que a causa, a criação do tempo e o tempo, ou a sua passagem a existência, são simultâneos, portanto, não há qualquer incoerência em pensar em Deus criando o universo, o que inclui o tempo, estando num estado atemporal.  

Porém, invocar a simultaneidade causal não resolve a problemática por um motivo bem simples. Para ficar claro, eu vou usar um exemplo retirado da literatura concernente à filosofia do tempo. Em filosofia do tempo, há uma discussão referente a mudança ou passagem do tempo. Todos os filósofos que compram a ideia de que o tempo existe entendem que o tempo muda. A discussão gira em torno de saber como funciona esse processo de mudança. É assumido que mudança ocorre apenas dentro do tempo, portanto, se o tempo muda, então, ele muda dentro do tempo, isto é, dentro de um meta-tempo.

Esse problema é chamado de problema da mudança\passagem. O que eu quero fazer é aplicar esse mesmo padrão de problema ao caso da criação. Ora, quando falam que a criação do tempo e a sua existência, isto é, a existência do tempo, são simultâneas, o que podemos perceber é que essa simultaneidade não pode dizer respeito ao tempo que surge, afinal, simultaneidade ocorre apenas dentro do tempo, e a criação do tempo e a sua passagem para a existência são dois eventos distintos, porém, simultâneos. Portanto, isso clama por um tempo onde a simultaneidade desses dois eventos ocorre.

Uma resposta seria dizer que a simultaneidade desses dois eventos ocorre dentro do tempo que passou a existir. O problema com essa resposta é notório. Ela é extremamente absurda, ora, para o tempo que passou existir ocupar o evento do seu nascimento, ele teria que existir previamente, isto é, existir anterior ao seu próprio nascimento. Como isso é impossível, temos que essa saída\resposta falha. Uma coisa é dizer que a causa e o evento do nascimento do tempo são simultâneos, outra coisa, é dizer que o tempo que passou a existir ocupa o evento do seu próprio nascimento. E se tal absurdo é admitido para salvar a creatio ex nihhilo, então, por que não assumir que o universo é auto causado? Eu não vejo diferença entre ambas as teorias.

Uma segunda resposta reside em rejeitar que o tempo seja imprescindível para haver causação. Assumir essa posição é assumir a possibilidade de causação atemporal. Uma teoria de causação desse tipo é possível ser encontrada no trabalho do filósofo norte americano David Lewis. Lewis propôs causação em termos contrafactuais. Essa abordagem repousa sobre uma noção de dependência causal. O problema com essa abordagem é que, na ausência do tempo, não dá para estabelecer uma ordem causal entre eventos. Em outras palavras, o evento da criação do tempo pode ser a causa do seu nascimento tanto quanto o evento que diz respeito ao seu nascimento pode ser a causa do evento da sua criação.

Quarta Objeção: Conhecimento perspectivo/temporal

Esta quarta objeção repousa no que os filósofos chamam de conhecimento perspectivo. Para você entender, os filósofos da linguagem disputavam se indexicais temporais poderiam ou não ser exorcizados da linguagem. Depois de uma longa discussão, se concluiu que não. Ou seja, os indexicais temporais não poderiam ser exorcizados da linguagem sem perdas consideráveis. Uma série de considerações foram dadas para sustentar essa conclusão, uma delas foi apresentada pelo filósofo de Stanford Jonh Perry através de uma ilustração que ficou famosa na literatura.

Perry convida-nos a imaginar um professor universitário sentado em seu escritório um dia ciente de que tem uma reunião importante com o seu chefe às 15h. Ele pode dizer (1) baixinho enquanto mexe os papéis e cuida de minúcia administrativa.

(1) Tenho uma reunião com o chefe às 15:00.

Enquanto ele flutua no seu escritório, percebe que o relógio na sua parede não se moveu depois das 14:30 há um tempo. Confuso, ele verifica o relógio no seu computador. Ele, o computador, diz que são 15:00. Ele verifica a hora on-line. Conclui que são de fato três horas da tarde e profere (2).

(2) Oh não, eu tenho uma reunião com o chefe agora!

Ele imediatamente se levanta e corre para o escritório do chefe.

Indiscutivelmente, seu enunciado de (2) reflete um conhecimento que seu enunciado de (1) não possui e esse conhecimento adicional desempenhou um papel em suas ações. O pensamento que expressou com a expressão de (1) não foi suficiente para se levantar da cadeira. Foi só por ter pensado o que expressou através (2) que formou a intenção de correr imediatamente para o escritório do chefe.

Aqui podemos perceber duas coisas, o que motiva intenção e ação é ter conhecimento perspectivo, isto é, conhecimento do que é agora o caso. Se tivéssemos apenas conhecimento a-perspectivo, conhecimento atemporal, nossas ações e emoções ficariam congeladas. Trocando em miúdos, não poderíamos agir.

Dado esse background, podemos facilmente entender porque Deus não poderia criar o universo, incluindo, claro, o tempo. Para Deus fazê-lo, Deus teria que ter conhecimento temporal, o que, no cenário que se encontrava, era impossível. Aqui não dá para apelar para simultaneidade. Veja, a simultaneidade diz respeito à causa e efeito. Eu ataquei isso em outro lugar, mas digamos que seja possível haver simultaneidade nesse cenário. Mesmo que eu concedesse isso, temos que a simultaneidade é uma relação que depende de dois eventos, no caso, a causa e o efeito. Porém, um desses eventos, no caso a causa, depende do efeito para existir. Pois, apenas através dele é possível agir. O que temos é que a causa é causada pelo efeito, o tempo. Trocando em miúdos, o tempo teria que existir para poder haver causa e simultaneidade.

Essa objeção é diferente da terceira. Na terceira, eu argumento que simultaneidade só ocorre dentro do tempo, porém, agora eu estou argumentando que a causa só pode vir a existir, isto é, Deus só poderia agir\causar se tivesse conhecimento temporal. Nesse caso, temos que o tempo teria que existir de qualquer forma para haver causa e, inclusive, intenção. Deus sequer poderia intentar criar o mundo sem conhecimento temporal.

Eu penso que essa é uma boa objeção. A única forma de rejeitá-la, é considerando o tempo dispensável para motivar intenção e ação. Apenas os teóricos B endossariam isso, como o argumento kalam pressupõe a teoria A, eu não acredito que um defensor do kalam exploraria essa forma como um contra-argumento. Mesmo o Craig não rejeita isso. Aliás, esse é justamente um dos argumentos utilizados por ele para a sua defesa da realidade temporal.

Quinta Objeção: Criar o que não existe

Seguindo o trabalho de Burge, e muitos outros, temos motivos para acreditar que nossos desejos e outros estados (e conteúdo) psicológicos em geral são baseados no mundo físico. Isso se aplica inclusive às ilusões. A título de exemplo, considere a ilusão de Müller-Lyer, duas linhas do mesmo comprimento podem parecer ter comprimentos diferentes, mas observe que essa ilusão, como outras ilusões, opera com propriedades físicas reais. Podemos estar errados quanto ao comprimento relativo de duas linhas, mas o comprimento é, por tudo isso, uma propriedade que as coisas têm no mundo físico. Da mesma forma, uma parede branca iluminada com luz vermelha pode parecer uma parede vermelha, mas a vermelhidão é uma propriedade da refletância da superfície. Estamos errados ao dizer que a propriedade vermelhidão se aplica à nossa parede iluminada.

Meu desejo por um copo de água mineral pode ser caracterizado como uma relação entre eu e a água mineral – aquele líquido borbulhante que consiste em H2O, muitos minerais e alguma quantidade de impurezas. Se esse líquido não existisse, eu não seria capaz de desejá-lo, a não ser, é claro, que eu tivesse esse desejo pelo estudo da química e imaginei que esse líquido seria refrescante. Nesse caso, meu desejo ainda está ancorado em importantes propriedades de nível micro do nosso mundo físico.

Tomando isso como base, a pergunta que surge é: como pode Deus desejar nos criar se não existíamos? Isto faz algum sentido? A mente pode ser um teatro de conteúdos mágicos sem absolutamente nenhuma base na realidade externa? Claro, podemos imaginar unicórnios, mas podemos fazer isso em virtude de haver cavalos e chifres. Deus encerrado na eternidade, sem nada além dele mesmo, não havia nada ali capaz de causar em Deus estados psicológicos que motivassem a criação de alguma coisa, como foi então possível para Deus criar-nos?

Dizer que Deus pôde criar-nos porque ele é onisciente não resolve a problemática. Onisciência é a propriedade de conhecer todas as verdades que existem. Na eternidade, não existiam verdades sobre os seres humanos, animais, cavalos, etc afinal, nada disso existia. A verdade, tal como os estados psicológicos, supervem sobre o mundo, ou, em outras palavras, sobre o que existe. A proposição seres humanos existem é falsa na eternidade, afinal, não há seres humanos na eternidade. Na realidade, dada a natureza das proposições, tal proposição sequer poderia existir na eternidade. 

Apelar para idiotices do tipo: Deus sabe tudo, ele pode tudo, etc acaba por jogar no ralo a essência dos atributos divinos. Deus ser onipotente não é poder fazer tudo, mas poder fazer tudo aquilo é metafisicamente possível. A mesma coisa se aplica a onisciência. Portanto, dada essa quinta objeção, podemos concluir a impossibilidade da creatio ex nihilo.

REFERÊNCIAS

Burge, T., 1986. “Individualism and Psychology.” The Philosophical Review 95, 3–45.

Cappelen, H., and Dever, J., 2013. The Inessential Indexical. Oxford: Oxford University Press.

Crisp, T., 2007. “Presentism and the Grounding Objection.” Noûs 41, 90–109.

Lewis, D., 1992. “Review of D.M. Armstrong, A Combinatorial Theory of Possibility.” Australasian Journal of Philosophy 70, 211–24.

Ludlow, P., 1999. Semantics, Tense, and Time: An Essay in the Metaphysics of Natural Language. Cambridge: MIT Press.

Markosian, N., 2004. “A Defense of Presentism.” In D. Zimmerman (ed.), Oxford Studies in Metaphysics I. Oxford: Oxford University Press.

Perry, J., 1979. “The Problem of the Essential Indexical.” Nous 13, 3–21.

Recanati, R., 2007. Perspectival Thought: A Plea for (Moderate) Relativism. Oxford: Oxford University Press.

Smith, Q., 1993. Language and Time. Oxford: Oxford University Press.

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