Questões de gênero e tabus sexuais

Por Murilo Azevedo

Recentemente, a transexualidade voltou ao debate público quando a cantora Marília Mendonça fez uma piada em sua live envolvendo mulheres transexuais. Isso repercutiu na internet e influenciadores começaram a se manifestar, dentre eles, Felipe Neto. Por seu grande alcance, ao fazer considerações sobre a transexualidade, a postagem de Neto ampliou o campo de discussões.

Image for post

Pode-se ter várias críticas aos pensamentos do Felipe Neto, mas, neste caso, ele está certo. Para explicar o porquê, apresentarei conceitos importantes sobre questões de gênero, pois estes termos podem não ser óbvios para quem não está acostumado a ouvi-los.

Genótipo e Fenótipo

O genótipo é o código genético que, influenciado por fatores ambientais, vai manifestar determinadas características no corpo, as quais são chamadas por fenótipo. Todas as interações sociais se dão pela aparência (fenótipo) da pessoa, tendo em vista que nenhum sentido do ser humano é capaz de captar o genótipo de outro, mas apenas suas aparências. Portanto a aparência da pessoa serve como um rápido lapso para outros identificarem seu gênero e assim ser tratada por sua identidade correspondente.

Em relação ao sexo da pessoa, o genótipo está contido em seus cromossomos. Do ponto de vista biológico, pode-se ter um macho (XY), uma fêmea (XX) ou uma intersexualidade (manifestação dos dois sexos), que, pelos genes, irão manifestar determinadas características sexuais no corpo humano. As diferenças entre os 2 sexos (dimorfismo sexual humano) vão além da genitália. Portanto, não se pode reduzir o sexo do indivíduo à genitália.

Image for post

Gênero

– Identidade de gênero: De aspecto psicológico. Trata-se da pessoa se identificar com o papel de gênero atribuído ao seu sexo (cisgênero) ou não (transgênero).

– Papel de gênero: De aspecto social. Trata-se das expectativas sociais sobre determinado sexo, ou seja, do papel social atribuído ao sexo masculino (homem) e do feminino (mulher), que podem variar a depender do contexto histórico-cultural, podendo ter uma origem etológica (comportamentos e preferências) e também socialmente construída (por exemplo, os trajes da moda, os padrões de cores azul/rosa, as convenções relacionadas ao cruzamento de pernas ao sentar etc.).

Dessa forma, não existem mulheres ou homens falsos ou verdadeiros, mas sim pessoas que se identificam e agem de acordo com algum papel social. Por isso, é necessário fazer a dissociação entre gênero e sexo, pois ainda que tenham alguma relação, não tratam da mesma coisa.

É possível que um indivíduo não se reconheça em algum papel de gênero padrão na sociedade na qual ele vive em determinado contexto histórico-cultural. Os indivíduos que vivenciam tal fenômeno podem ser chamados de não-binários (em referência à binaridade padrão homem/mulher).

Em algumas sociedades, é possível haver um terceiro gênero, como o two spirits nos povos nativo-americanos, que se referem a um “espírito” masculino e feminino convivendo no mesmo corpo. Nesses povos, o terceiro gênero geralmente engloba gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. Outro exemplo são os hijras na Índia, gênero atribuído a pessoas nascidas homens e que, depois, passaram a se comportar e viver como mulheres.

Transexualidade

Transgêneros são pessoas que não se identificam com o papel de gênero atribuído ao seu sexo, geralmente causados pela disforia de gênero, que é uma condição na qual há um desconforto com as características sexuais do corpo. Já há diversos estudos científicos que mostram a correlação de padrões cerebrais de pessoas cis e trans, nos quais mulheres trans possuem diferenças estruturais mais semelhantes ao de mulheres cis do que homens cis, e vice-versa com homens trans. São evidências de que um indivíduo não aprende a ser transgênero, mas sim que já pode nascer assim.

Um transexual é um transgênero que já transicionou de gênero por meio de cirurgias, procedimentos estéticos e tratamento hormonal. Desse modo, nem todo transgênero é transexual, mas todo transexual é um transgênero. Analogicamente, pode-se ilustrar do seguinte modo: nem todo retângulo é um quadrado, mas todo quadrado é um retângulo.

Nem sempre os transgêneros possuem disforia com a genitália ou com os seios. Alguns escolhem não fazer redesignação sexual nessas áreas do corpo. O propósito da transição de gênero é justamente amenizar os sintomas de disforia, os quais, se não devidamente tratados (e isso não inclui tão somente a intervenção estética ou hormonal), podem provocar ansiedade e depressão. Caso alguém tenha decidido transicionar mesmo sem ter disforia de gênero, por qualquer razão, trata-se de uma decisão da pessoa sobre o que fazer com seu próprio corpo.

Expressão de gênero

A expressão de gênero, de modo geral, diz respeito à maneira como a pessoa se apresenta aos outros, incluindo comportamento e vestuário. Pode-se imaginar um espectro de expressões em que as extremidades representam o estereótipo de um homem e mulher e, na região central, temos expressões andróginas e neutras. Nesse ponto, há aqui um problema de indeterminação, em que não existe uma separação objetiva (de 8 ou 80) entre a expressão feminina e masculina (semelhante ao problema filosófico de a partir de quantos grãos de areia se forma um monte de areia).

A expressão de gênero não reflete necessariamente a sexualidade da pessoa, pois, independentemente da maneira como ela se expresse, não é este o critério de definição da orientação sexual. O que a expressão de gênero tende a refletir é a identidade de gênero do indivíduo. Mulheres trans e cis costumam ter uma expressão de gênero predominantemente feminina. Por sua vez, homens cis e trans costumam ter uma expressão de gênero predominantemente masculina.

Image for post

Orientação Sexual

É um conceito que engloba um fenômeno complexo, abarcando aspectos biológicos, psíquicos e sociais. Não há consenso científico sobre as causas da orientação sexual, podendo ser multifatorial.

Trata-se daquilo que desperta o desejo sexual em relação ao gênero do qual se identifica. Supondo tanto a teoria de que a orientação sexual possa ser aprendida socialmente quanto a teoria de que ela é inata ao nascimento, não há controle sobre o que se deseja, pois o gosto se dá de maneira intuitiva. Em situações menos complexas, mas igualmente válidas, como comer um bolo ou cheirar um perfume, a resposta do corpo à experiência (identificando se a experiência foi prazerosa ou desagradável), dá-se de imediato, e não por meio de juízo ou reflexão. Como diria Arthur Schopenhauer em O Mundo como Vontade e Representação: “O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer”.

Sendo assim, a atração sexual pode se manifestar de maneiras diversas, existindo variações nos padrões individuais de desejo até mesmo dentro de grupos heterossexuais, bissexuais ou homossexuais.

É inadequado afirmar que exista uma pessoa absolutamente heterossexual (ou homossexual ou bissexual). Em vez disso, podemos afirmar que o espectro de atração está mais próximo de algumas dessas orientações.

Na figura abaixo, tem-se uma representação gráfica das orientações sexuais padronizadas mais comuns. A forma pontilhada indica qual parte do espectro de expressão de gênero a pessoa se atrai, bem como sua classificação.

Image for post

Muitas pessoas confundem bissexualidade e pansexualidade. Enquanto na bissexualidade a atração costuma ocorrer por pessoas com uma aparência predominantemente masculina e predominantemente feminina, na pansexualidade a atração se dá independente da expressão de gênero da pessoa, ou seja, expressões mais andróginas e neutras podem despertar desejo em pansexuais. Portanto há uma diferença entre essas duas sexualidades, não devendo ser tratadas como uma coisa só.

Não nos atraímos pelo sexo da pessoa (genótipo), pois nenhum ser humano tem capacidade de enxergar ou sentir o cromossomo dos outros. “Uau, que belas curvas suas sequências de nucleotídeos possuem”. O que os seres humanos captam é o fenótipo, é a aparência que nos causa a atração sexual.

Conclusão

Um homem que sinta atração por mulheres trans e cis, mas que não sinta nenhuma atração por homens trans e cis, continua heterossexual. Mulheres trans tem uma aparência predominantemente feminina. O espectro do rapaz que sente atração sexual por mulheres trans e cis se aproxima mais da heterossexualidade do que de qualquer outra sexualidade. Ainda que uma mulher trans não faça redesignação sexual em sua genitália, isso não mudaria a sexualidade do homem no exemplo, pois a aparência não se resume ao órgão sexual da pessoa, fazendo com que ela continue mais parecida com uma mulher do que com um homem.

Para quem acredita que os órgãos genitais são decisivos na definição de sexualidade, recomendo fazer um exercício mental (que não vai funcionar para pansexuais e talvez também não para bissexuais). Se você for um homem heterossexual, tente imaginar o Brad Pitt ou qualquer outro homem cis com uma vagina; caso você seja uma mulher heterossexual, imagine a Lady Gaga ou qualquer mulher cis com um pênis. Se depois desse exercício não se sentirem atraídos, então já está provado que não são os órgãos sexuais isoladamente que farão toda a diferença, mas sim uma aparência predominante masculina ou feminina. Homens que se relacionam com homens cis e trans mas não com mulheres cis e trans (ou seja, os gays) não saem por aí se dizendo heterossexuais nem bissexuais, justamente por possuírem menos tabus sexuais do que pessoas heterossexuais, já que não estão inclusos na sexualidade padrão.

Finalizando com o comentário sobre achar graça alguém sair com mulher trans, é bom nos perguntarmos por que isso foi considerado engraçado. Ririam Marília e os integrantes da banda se estivessem se referindo a uma mulher cis? Essa desigualdade no tratamento já evidencia a transfobia, que por si só não deveria ser praticada por uma questão de respeito à dignidade humana. Assim, quando analisarmos a fala de alguém que podemos não gostar, em vez de sermos conduzidos por nossos vieses psicológicos que insinuam que tudo o que a pessoa diz está errado, podemos estudar o conteúdo do discurso — e ultrapassar o julgamento baseado apenas na pessoa que o profere.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: